Encontros de Escrita | Um lançamento… “Aparentemente diferente”

O último sábado à tarde ficará para sempre na minha memória como um dos momentos mais emocionantes que vivi na minha Faculdade. Foi uma tarde de afectos, de conquistas, e de uma união entre os presentes pouco habitual nos dias de hoje.

No passado dia 16 de Abril decorreu, pelas 15h, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, o lançamento do livro “Aparentemente diferente”, de Manuel Francisco Costa.
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Manuel Francisco Costa trabalha como designer gráfico nesta faculdade, mas o seu talento não se esgota nos bonitos cartazes que prepara, entre outros serviços. As palavras também são uma paixão que, aliás, partilhamos. Mas o Manuel Francisco é, para mim, um exemplo de como tudo é possível. Uma prova de algo que acredito há muito tempo: as semelhanças entre as pessoas são bem mais importantes do que as suas diferenças. E as diferenças, por vezes, não são bem o que parecem…

Com muita alegria minha, o Manuel Francisco aceitou o convite de responder a algumas questões aqui para A Toca do Nunca. Por isso, convido-vos a conhecer este autor e o seu mais recente livro de poesias, contos, mensagens… e muito Porto!

1 – Fale-nos um pouco de si e de como começou o seu gosto pela escrita.

Bem, o meu cartão de visita sempre foi e sempre será a minha paralisia cerebral. Assim sendo, uso essa condição física como base para construir coisas positivas, sendo a escrita um bom exemplo disso mesmo. Na escola, tinha muito jeito para escrever e, em 1993, nos meus 16 anos, surge o “Nadas Vitais”, um pequeno livro de um adolescente diferente, mas feliz. A partir daí, não me dediquei mais às palavras porque tive que me impor para alcançar objetivos de vida que achei primordiais no meu crescimento pessoal e afirmação profissional. Contudo, em 2010, senti uma enorme necessidade de voltar à escrita, adotando a poesia como forma de libertação espiritual.

2 – Quais as suas inspirações? Sobre o que mais gosta de escrever?

Porto clube e Porto cidade, sempre! Depois as minhas experiências de alguém diferente inserido no mundo dos aparentemente normais. De resto, as inspirações de qualquer homem – as mulheres, o desejo, os sonhos, os devaneios, a ficção, os valores que se têm perdido ou um simples momento de silêncio. Tudo isto observado sentado numa cadeira de rodas.

3 – Fale-nos um pouco sobre a obra “Aparentemente diferente”: o que pretendeu transmitir nestes textos e o que significa para si o lançamento deste livro?

Todos somos diferentes mas, sem dúvida, quem tem uma deficiência física mais visível tende a ser mais diferente aos olhos de quem o olha. Sempre tentei ser o menos diferente possível dos demais e com 40 anos de idade, sinto-me igual aos ditos normais e diferente de todos, por essa própria diferença que existe em qualquer um de nós. O livro, também este é diferente de todos os biliões que existe mas este, o meu, tem a particularidade de retratar um homem aparentando diferente aos olhos da sociedade, utilizando um lado mais poético, mais romântico para vincar esse dar a conhecer a essência de alguém, os seus sonhos, pensamentos, sentimentos, devaneios e paixões. A sessão correu muito bem, superando as minhas próprias expectativas. Sempre achei que não iria ser capaz de enfrentar uma plateia, de falar em público e de me expor como realmente sou. Nessa tarde, ficaram patentes valores como o afeto, a amizade, o respeito pela diferença. Dei e recebi! O tal mundo melhor passa por aí – a Partilha de valores que se vão perdendo no tempo. Cada pessoa presente naquele auditório fez, acredito, o mundo um bocadinho melhor.

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4 – Quais os desafios de ser escritor e portador de uma incapacidade? Em que medida as suas experiências de vida contribuíram para a sua escrita?

Penso que estas questões já foram, de certa forma, abordadas nos pontos anteriores. Alguém com incapacidades físicas, obrigado a lutar com armas diferentes para nunca desistir daquilo que entende conseguir alcançar, terá uma visão mais ampla da realidade que o/a rodeia. Não foram somente as minhas experiências de vida determinantes. A falta das mesmas têm também um impacto considerável no ato de expor os meus textos.

5 – Tem outras obras publicadas ou que gostaria de vir a publicar?

Gostaria de lançar um romance ou um conjunto de contos com essa componente. Será ponderado.

6 – Quais os seus objetivos e sonhos para o futuro, quer na escrita, quer no geral?

Sendo eu um sonhador nato, são esses sonhos que me conduzem a querer alcançar alguns objetivos por concretizar. Costumo dizer que os sonhos não dependem só de nós, mas os objetivos sim. Começo, portanto, a focar-me mais nesses poucos objetivos de vida mas bastante arrojados.

 

 

Com este exemplo de determinação e esperança, torna-se difícil concluir esta publicação. Por isso, deixo um último agradecimento ao Manuel Francisco pela sua simpatia e partilha, e despeço-me com estas palavras de Fernando Pessoa:

 

“Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.”

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