#7 Instrospecções | O que cabe debaixo de um guarda-chuva

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Olá a todos, e sejam bem-vindos à Toca do Nunca! Já não é a primeira vez que um livro me faz reflectir sobre diversos assuntos, por vezes remotamente relacionados com os temas da narrativa. E é uma situação idêntica que me traz hoje aqui, de tal forma que nem sequer consigo associar excertos do livro em questão a este texto. Isto porque esta rúbrica é, de facto, um espaço onde a única regra é partilhar os meus pensamentos e ideias em torno dos livros.

O livro que me inspira hoje é Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz. Apesar de não ter sido uma leitura marcante para mim, fascinou-me a capacidade de o autor abordar temas sensíveis e sérios de forma subtil e cheia de significado. Vários são os temas desta narrativa. Desde logo, a Fé e as Religiões. No entanto, um outro tema que também está presente, e que me fez descobrir algo novo sobre ele, é a Parentalidade.

É sobre ele que vos venho falar, não sem antes fazer algumas ressalvas. Não vos posso falar da perspectiva de uma mãe, uma experiência que ainda espero vir a ter e que sei que enriquecerá muito a minha opinião sobre o assunto. Falo-vos da perspectiva de uma filha, de uma mulher e de uma pessoa com formação em Psicologia. Falo-vos na mesma porque considero que algumas experiências que já vivi contribuirão para a mãe que poderei vir a ser. Falo-vos também para trazer uma perspectiva diferente sobre este tema à blogosfera 😉

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Neste livro, chamou-me a atenção a vivência da parentalidade por duas vias: pela via natural, e pela via da adoção. Quando paramos um pouco para desconstruir estes conceitos, apercebemo-nos que, na verdade, todas estas crianças têm um “passado biológico”, i.e., todos nós somos concebidos da mesma forma (mesmo na fertilização artificial, há um processo básico de fecundação). No entanto, o que acontece para que uns venham a ter uma “parentalidade biológica” e outros tenham uma “parentalidade adotiva”? Bem, há imensos fatores, largamente conhecidos, que podem levar uma mãe a dar o seu filho para adoção ou a vê-lo retirado, para não falar da orfandade. No entanto, e se formos a ter também em consideração a diversidade de famílias biológicas (umas muito próximas, outras muito desligadas) podemos aperceber-nos de que os laços biológicos parecem desempenhar um papel importante, mas não determinante para a formação dos vínculos entre pais e filhos. Características pessoais, maturidade, e até o sonho prévio de se ter filhos são também muito importantes. Por isso, uma das coisas que ao longo dos anos fui concluindo, e que encontrei espelhado também neste livro, é esta: a parentalidade é sempre uma adoção.

Desconcertante? Talvez não, se estivermos conscientes da responsabilidade que ser pai ou mãe envolve. É um projecto para a vida, no qual as nossas necessidades, embora devam ser cuidadas, ficam para segundo plano, pois as dos nossos filhos passam a ser prioritárias. Esta é uma transformação de tal modo exigente que não basta conceber um filho. De facto, na adoção, esta etapa não existe, mas existe tudo o resto que forma a parentalidade (e muitas outras especificidades).

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Se pensarmos nos nossos amigos, ou até nos nossos melhores amigos, podemos perceber que conseguimos estabelecer com eles laços tão fortes como os que temos com a nossa família. Podemos perceber, então, mais duas coisas importantes. Uma é que podemos sempre descobrir algo em comum com os outros. E tal como acontece na obra de Afonso Cruz, o protagonista descobre bem mais coisas em comum com o seu filho adotivo do que com o seu filho biológico. Há medida que nos tornamos mais maduros, percebemos até como as nossas semelhanças, enquanto seres humanos, são mais valiosas do que as nossas diferenças. Assim, podemos construir relações cada vez mais ricas. A outra coisa é que para construirmos essas relações, e a relação entre pais e filhos em particular, precisamos sempre de nos envolver, de escolher livremente embarcar na aventura de criar um ser humano.

Isto leva-me a um aparte, que não resisto em partilhar. A parentalidade envolve sempre uma escolha da parte dos pais. Somente dos pais, nunca dos filhos, nem no caso da adoção. Muitas vezes, porém, tenta-se incutir às crianças adotadas que elas devem sentir-se gratas, aconteça o que acontecer, porque foram adotadas e têm mais sorte do que as que estão em instituições – poderão ter, e o Estado zela por isso. Mas, imagine-se que estas vão para um contexto onde são na mesma ignoradas, mal-tratadas, postas em perigo, como acontece no caso da narrativa de Afonso Cruz? Terão sorte? Quando se fala “no superior interesse da criança”, fala-se frequentemente de forma leviana. Esquece-se do verdadeiro significado da parentalidade, romantizada muitas vezes. Muito recentemente, tive oportunidade de registar esta frase da parte de uma professora, Dr.ª Adelina Barbosa, que resume muito bem, não só a essência da parentalidade adotiva, como da parentalidade em geral: “A adoção não foi feita para pais que não podem ter filhos, mas para crianças que não podem ter pais de outra forma.”

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Por isso, retomando, ser pai ou mãe torna-se um dos papéis mais importantes que se tem na vida. Até aqui não há novidades. E torna-se num dos maiores amores da nossa vida. Até aqui também não há nada de novo. Mas bastará amar? Muito rapidamente surgirá como resposta “Não”, acompanhada de uma lista de outros requisitos: educação, protecção, etc.

Mas fiquemo-nos pelo amor, já que dele brota toda a motivação para esta aventura da parentalidade (quer para os filhos biológicos, quer para os adotivos). Enquanto jovem adulta (já não tão jovem, cada vez mais adulta) vivi, nos últimos anos, um conjunto de experiências que me obrigaram a colocar-me no papel dos meus pais, a compreender como eles se estariam a sentir, e a saber ter isso em consideração nas minhas escolhas. Confirmei, muitas vezes, o grande amor que os meus pais têm por mim. Confirmei, também, o quanto é difícil, apesar desse amor, gerir as nossas emoções e comportamentos de forma saudável para o desenvolvimento dos filhos.

Amar é fácil, está-nos nos genes. Amar bem, é difícil. O amor dos pais, apesar de todos os pais serem diferentes, tem formas de expressão também convencionadas de cultura para cultura, e de geração para geração. Muitas vezes, essas formas parecem entrar em conflito com as necessidades desenvolvimentais de uma criança. Isto porque também tende a haver um conjunto de ideias estereotipadas sobre o comportamento das crianças, que algumas vezes impedem os pais de conhecerem e se relacionarem com a pessoa que o seu filho é. Na obra de Afonso Cruz, isso é notório na relação que o protagonista tem com o seu filho biológico, mas também é uma barreira persistente na relação com o seu filho adotivo. Esta capacidade de se relacionar com um filho implica que, à partida, os pais reconheçam os seus filhos como seres, ainda em desenvolvimento, mas independentes (não só quando estes chegam aos 18 anos). E isso é importante para que, mais tarde, estes filhos venham a poder escolher livremente transmitir a outra geração o amor que receberam…

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