#6 Introspecções | O Amor está no Cérebro…

Olá a todos, e sejam bem-vindos a este cantinho! Hoje trago-vos mais um dos meus textos mais profundos e intimistas d’A Toca – as introspecções. Se chegaste neste momento ao Blog, e não fazes ideia do que se tratam, estas publicações não são tradicionais opiniões de livros. Sim, partem de leituras que fiz, mas que fizeram o meu pensamento ir mais além ou que despertaram as minhas emoções. E que me levam a partilhar um pouco mais de mim e do quanto a leitura me fascina.

Só que as introspecções de hoje partem não de um, mas de dois livros: “A nossa casa é onde está o coração” de Toni Morrison e “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” de Jorge Amado. São dois livros muito diferentes, sendo o último mais vocacionado para um público infantil, e o outro, sem dúvida, para um público maduro. No entanto, e apesar de nenhum deles ser um romance, o que ambos têm em comum é o facto de abordarem o tema do Amor.

“Engana-se redondamente se pensa que eu andava apenas à procura de uma casa com uma dose de sexo no interior. Não andava. Qualquer coisa nela me desconcertou, me levou a desejar estar suficientemente bem para ela. É-lhe demasiado difícil compreender isso? (…) Não creio que saiba muito acerca de amor. Ou de mim.” (A nossa casa é onde está o coração, pg. 70)

Tarefa difícil, falar sobre o amor… O que é o amor, afinal? Alguém consegue definir? Eu não vou tentar…

gato malhado

E, no entanto, é tão fácil de ver quando o sentimos. Menos claro, talvez, de o percebermos em nós mesmos, mas com o tempo acabamos por conhecê-lo. E vemos manifestações frequentes e naturais do seu poder nas nossas vidas. As famílias que nascem da vontade das pessoas que se amam e decidem partilhar as suas vidas juntos. Os filhos que decidem ter, amar e criar para o resto das suas vidas. E o vazio doloroso da solidão quando, por diversos motivos, o amor que sentimos e que por nós sentem se acaba, morrendo ou forçado a retirar-se para um cantinho do nosso coração.

“Sofria, mas ainda não estava desesperado, ainda se alimentava do que ela lhe havia dado antes. Triste no entanto, porque a felicidade não se pode alimentar das recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro.” (O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, pg. 97)

De facto, o amor parece ser o responsável por algumas das melhores coisas da vida, e uma das principais fontes de felicidade, construindo os alicerces dos nossos lares e das nossas vidas. Ao mesmo tempo, é capaz de nos vulnerabilizar para as maiores angústias, deixando um rasto irreversível de dor e solidão. Ele parece, assim, estar na essência do ser humano, como uma capacidade que pode sempre ser despertada e atualizada, por mecanismos que a ciência ainda não descortinou.

“Só por ser um gato ainda por cima malhado? Mas ele tem coração como todos nós…” (O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, pg. 48)

A ciência, no entanto, já reconheceu que os sentimentos e emoções desempenham um grande papel na nossa vida e na nossa existência. Um dos grandes neurocientistas da atualidade, o português António Damásio, dedicou a sua carreira ao estudo da mente, do cérebro e da consciência, sendo que uma das ideias principais do seu trabalho (e espero não ser reducionista) é a de que a consciência decorre da ligação entre corpo e mente e cuja base estaria nos sentimentos que produzem o sentido de self.

gato malhado2

O seu trabalho teve um grande impacto em muitos aspectos, mas saliento um dos que me chama mais a atenção, e que é também a minha própria apropriação do conhecimento. Ao percebermos que, na base da consciência, estão as estruturas mais básicas do cérebro (não só em termos anatómicos, mas também evolucionistas) e, por isso, mais ligadas às emoções (e.g. o tronco cerebral e o sistema límbico), isso demonstra o quanto a afectividade está integrada no ser humano e faz dele pessoa. Isto é, não somos somente seres racionais, para os quais a afectividade é um passado pré-histórico, e ser-nos-á pouco útil ou até prejudicial nos tempos modernos. Na verdade, o nosso sentido de self  – o nosso Eu – e, por conseguinte, o Outro, constrói-se de sentimentos e emoções. Sentimentos e emoções que delimitam as nossas fronteiras, mas que também nos unem. E esse é outro dos elementos-chave para a nossa consciencialização – a socialização. A socialização é, desde logo, a transmissão de tudo aquilo que construímos enquanto espécie Homo Sapiens Sapiens e que se associa ao desenvolvimento do nosso córtex frontal e pré-frontal (a cultura, a religião, a ciência). Mas é também esta afectividade, decorrente das estruturas mais primitivas, que nos granjeiam esta capacidade de sentir: sentir em relação a nós, e sentir em relação aos outros.

“Exposta ou não aos raios de sol, ela queria socorrer-se a si própria. Tinha um cérebro, ou não? Lamentar-se, não adiantaria nada, nem culpar-se, mas reflectir talvez. Se ela não se respeitasse, porque haveria alguém de o fazer?” (A nossa casa é onde está o coração, pg. 124)

Nós não somos nós sem o Outro. Nós não somos nós sem o nosso corpo. Somos um todo – essa interligação entre mente e corpo que se expressa em pensamentos, sentimentos, emoções, comportamentos. Existimos, conscientemente, graças a essa confluência. Graças ao nosso cérebro evoluído e sociabilizado. Desenvolvido em relações de vinculação.

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Existe um Eu, porque existe o Outro, diferente de mim e em relação comigo. O Amor é como que o alimento dessa relação, que, a menos que, por diversas circunstâncias, se esgote, pode sempre renascer. E cresce dentro de nós, transformando-nos.

Por último, esta noção de que o amor faz parte de nós enquanto seres conscientes também não deixa de parte, e reforça, um elemento essencial do amor, que é o amor-próprio. Se a minha mente e o meu corpo são um todo e se comunicam, eu estou em permanente relação comigo próprio. É o amor por mim próprio que me alimenta e me predispõe a amar o outro.

Por isso, deixem o amor fazer parte das vossas vidas… e sejam felizes!

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