Encontros de Escrita | Madalena Santos e os seus sete ofícios

madalena1

Conheci Madalena Santos através de uma outra paixão que ambas temos em comum, que não são os livros, mas a música. No entanto, não tardei a descobrir que Madalena não só gostava muito de livros, como também já tinha escrito e publicado não um, nem dois, mas quatro livros. De 2006 a 2010, a saga “As Terras de Corza” foi ganhando vida, como a maior obra literária da autora até agora, a par de outras publicações em jornais, revistas e concursos literários.

Mas se 4 livros publicados aos 28 anos de idade não chegassem para provar o quão trabalhadora e empenhada é, Madalena ainda conjuga a escrita com a advocacia, a música e o voluntariado. Fundou e coordena ainda a Biblioteca de Nogueira da Maia. É de todas estas atividades que lhe vêm a inspiração, admite, até porque todas fazem parte de si. E no meio de tantas atividades, ainda arranjou tempo e entusiasmo para uma entrevista para A Toca do Nunca… Por isso, aposto que vão gostar de conhecer Madalena Santos.

1 – Quem é a Madalena Santos e como começou o seu gosto pela escrita?

R: Uma Advogada que nas horas vagas canta, lê e escreve. E também desenhou. Desde cedo as Artes significaram um escape e o veículo perfeito para os devaneios e a criatividade. Inicialmente era o desenho (sem pintar, porque nunca gostei de pintar), mas logo descobri no discurso escrito que o horizonte podia ir mais além. Foi um processo natural e, ao mesmo tempo, acidental. A primeira experiência de narrativa longa (aos 12 anos) correu bem, muito bem; aliás, alguns traços do meu método de escrita se mantêm desde então, e é por isso que o gosto pela escrita se consolidou.

2 – Fale-nos um pouco d’As Terras de Corza e o que, a seu ver, torna esta saga tão especial?

R: Os quatro romances histórico-fantásticos desta Saga ocorrem nas Terras de Corza e nada mais os interliga – este é um ponto especial, pois habitualmente são os protagonistas que não mudam. Cada livro inspira-se numa época histórica diferente da Europa Central e do Sul e do Norte de África (e um bocadinho das Américas e da Indonésia): Idade Média, fim do Absolutismo e início da Era Liberal, o início da Industrialização e o último regressa às origens com reminiscências bárbaras pré-romanas e uma lembrança da Roma monárquica lendária. Depois, tudo vai variando: o protagonista pode ser uma mulher ou um homem, bem posicionado na sociedade ou nem por isso, valente e determinado ou frágil e dependente da força dos outros…

Sem recorrer ao sobrenatural e à magia, que muitas vezes são usados para desenvencilhar o autor de problemas de articulação de ideias e cenas, o enredo de cada volume debruça-se em vontades, pretensões épicas, desígnios que implicam sacrifício e reflexões sobre a moral, num ambiente minimamente familiar, ainda que ficcionado. As personagens são dinâmicas e, de uma maneira ou de outra, são espelho dos dilemas dos leitores – eis pois o segundo ponto especial, o que convida o leitor a regressar às Terras de Corza, “a casa”.

Sendo fantasia, enfim, admite um afastamento da realidade para um mergulho total noutras vidas e noutras aventuras – este ponto especial é o tal que a Fantasia transversalmente garante.

3 – O que a inspira a escrever e quais os autores ou livros que mais a influenciaram?

R: Uma música, um documentário sobre História, uma conversa, um momento de silêncio e reflexão. Tudo é promotor da escrita, para quem a identifica como uma forma de desligar as ansiedades do dia-a-dia e de reorganizar ideias e experimentar outras vidas e outros mundos sem sair do lugar.

Sempre que se pega num livro para ler, estamos prestes a ser influenciados, seja no gosto por este ou aquele tipo de enredo, seja na organização de ideias e de tramas. Indicaria há alguns anos, por exemplo, Juliet Marillier (O Filho da Sombra, da Série Sevenwaters) e Marion Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon) como as autoras favoritas que me convidaram a experimentar as culturas celta, viquingue e saxónica e a fantasia; actualmente, aponto Umberto Eco (Baudolino), Gabriel Garcia Marquez (Cem Anos de Solidão) e Patrick Rothfuss (O Nome do Vento). Em cada fase da vida haverá escritores diferentes a marcar as nossas horas solitárias a virar páginas.

4 – Além de escritora, a Madalena também é advogada, e desenvolve outras atividades como a música, política e voluntariado. Como conjuga a escrita com todas estas áreas de vida?

R: Não são facetas tão estanques como parecem. Um julgamento inspira tanto quanto cantar uma obra sinfónica. Ao debater assuntos sociais, económicos e políticos aprende-se a adensar os enredos. O voluntariado, por sua vez, permite conhecer pessoas que de outro modo não ocupariam a nossa vida, logo, haverá mais ideias para personagens inovadoras.

A escrita continua a ser um passatempo e, confesso, nem sempre lhe dou a prioridade que merece… e necessita. Mas sem os outros projectos paralelos não reúno a inspiração que quero; para o bem ou para o mal, eles são indissociáveis. Organizando a agenda com afinco, é possível fazer de tudo.

Um escritor não escreve sem sair do quarto. Escreve quando regressa ao quarto.

5 – Como escritora, tem estado ligada a várias atividades literárias, sendo de destacar a fundação e coordenação da Biblioteca de Nogueira da Maia. O que a motivou a iniciar este projeto e quais os seus objetivos para o futuro?

R: Primeiro, e acima de tudo, o culto do livro. As novas tecnologias têm ditado uma forma diferente de alcançar a leitura e a literatura, porém, acredito no livro em formato de papel e nas suas vantagens. Segundo, ter uma Biblioteca é também uma mais-valia, uma riqueza. Por fim, nas conversas em fóruns na internet dedicados aos livros, apercebi-me de que nas limpezas da Primavera muita gente quer livrar-se dos livros, porque não os quer ou porque já os leu e não espaço para os arrumar, e não sabe a quem entregar. Assim surgiu a ideia da Biblioteca de Nogueira da Maia.

A Biblioteca de Nogueira da Maia nasceu exclusivamente de ofertas privadas e conta com cerca de 3.000 livros, tornando-a a segunda maior biblioteca pública do Município da Maia. O primeiro objectivo era inserir esta Biblioteca na rede municipal, o que foi conseguido. Actualmente, queremos acima de tudo abrir as portas até ao final de 2016 com condições suficientes para consulta na hora e para pesquisa online em espaço para cibernautas.

6 – No futuro, gostaria de continuar a escrever dentro deste género de fantasia, ou gostaria de desenvolver outros interesses?

R: A imaginação solicita outras viagens para testar as suas limitações. Por sugestão de terceiros, experimentei a ficção científica, publicando o conto “Mistério dos Uivos” na colectânea do género do Fantasporto de 2012. Enquanto escrevia as Terras de Corza, produzi vários contos de terror e suspense. Já alinhei umas ideias para outros estilos. Estando tão intrínseca em mim, nunca abandonarei definitivamente a fantasia, mas estou disposta a outros ambientes.

Para ficarem a saber a autora, visitem o site. E para conhecerem As Terras de Corza, deixo-vos aqui o Booktrailer.

Um sincero agradecimento à Madalena por ter aceite este convite e nos ter desvendado um pouco do seu universo criativo. A sua dedicação e paixão por tudo o que faz são fontes de inspiração que enriquecem quem com ela contacta, e por isso a sua obra merece todo o reconhecimento e divulgação!

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s