Encontros de Escrita | O Mundo Fantástico de Joana Lopes

Quando olho para trás, vejo que, afinal, foram já várias as pessoas que se cruzaram comigo que partilham o fascínio pelo mundo literário. Uma delas foi Joana Lopes, ex-colega de escola e autora de “A Espada de Jardax – vol. I”. Por isso, e porque este meu blogue também existe para dar voz aos autores que contribuem para que a Literatura Portuguesa se enriqueça, decidi contactar a Joana para uma entrevista e ela aceitou o desafio.

12055269_942376445808498_339372549_o

Joana Lopes tem 25 anos é uma cidadã do mundo. É natural do Porto, mas, trabalhando como tripulante de bordo, os seus voos vão para além da escrita. A sua primeira obra, “A Espada de Jardax – vol. I”, publicada em 2007, quando ainda tinha 17 anos, nasce de uma imaginação profícua que, ainda hoje, a acompanha…

1 – Fale-nos um pouco de si e de como começou o seu gosto pela escrita.

R: Eu nunca fui uma criança particularmente social. Gostava de estar com os meus amigos, mas preferia ficar no meu cantinho com as minhas bonecas, a imaginar que vivia num mundo onde existiam fadas e princesas com poderes mágicos. Mas (ao contrário daquilo que possa parecer) nunca fui grande apreciadora de livros, nem da escrita. Os meus primeiros professores gostavam dos textos que resumia e dos poemas que escrevia quando tinha de ser. Mas, em miúda, eu gostava mais de Matemática e de Estudo do Meio. No entanto, tudo mudou quando, andava eu no meu 6º ano, o meu pai decidiu levar-me a ver o primeiro filme do Harry Potter. Apaixonei-me pelo filme e queria saber mais sobre a história daquele menino que descobrira ser feiticeiro. A avaliação negativa do meu pai ao filme, que parecia pecar pela falta de pormenores importantes, e a minha imensa curiosidade por conhecer o resto da história levaram-me de imediato à prateleira do meu quarto para procurar o 2º livro. Foi nessa altura que comecei a interessar-me mais pela leitura, e com a leitura veio a paixão pela escrita, começando primeiro por alterar aquilo que achava estar menos bem na história de Harry para depois começar a tentar criar a história “correcta” para mim. Tinha uns 10 ou 11 anos, perdoem-me a falta de humildade!

2 – O que a inspirou a compor e escrever o universo de “A Espada de Jardax”?

R: A “A Espada de Jardax” foi um projecto que surgiu cerca de dois anos depois de me aventurar no mundo da escrita. Tinha 13 anos. A minha ideia inicial era juntar todas aquelas ideias que me iam surgindo ao original que ainda estava a escrever (aquele que considerava ser a versão correcta do Harry Potter – não consigo evitar sorrir de cada vez que me lembro disso!). No entanto, à medida que novas ideias iam surgindo comecei a perceber de que não iria ser capaz de condensá-las nesse original e, portanto, a solução mais óbvia foi dar início a uma nova aventura. E foi assim que nasceu a “A Espada de Jardax”, um livro que nunca pensei vir a escrever, muito menos publicar. Todos os rascunhos e originais que escrevi partilham uma coisa: são universos fantásticos, e por isto entenda-se, os ambientes e cenários são sempre realidades alternativas. Eu não tenho grande interesse pelo estilo “contemporâneo”, talvez porque as histórias que ouvia o meu pai ler-me à noite eram sempre, ou muito frequentemente, de fantasia. Isso obrigava-me a construir os meus próprios cenários, a imaginar como seria aquele mundo que era tão diferente do meu. Acredito que isso tenha tido uma grande influência na minha entrada no mundo de fantasia enquanto escritora, também. Quanto a escritores, cujas obras li e voltei a reler dezenas de vezes e que inspiraram o meu universo: já mencionei o Harry Potter e, por consequência, a J.K.Rowling, mas posso dizer ainda Ursula K. Le Guin com a tetralogia O Feiticeiro e a Sombra, Debra Doyle e James D. MacDonald com a série A Escola de Feitiçaria, Jonathan Strauss com a trilogia Bartimaeus – que tem, apenas e só, a escrita mais hilariante com a qual alguma vez me cruzei. Obviamente, o Senhor dos Anéis de J.R.R.Tolkien, que acaba por ser a obra com a qual “A Espada de Jardax” mais se identifica. A nível nacional, As Crónicas de Allaryia de Filipe Faria e A Saga das Pedras Mágicas de Sandra Carvalho.

3 – Em que medida o lançamento deste seu primeiro livro alterou a sua vida?

R: No meu dia-a-dia, muito pouco, para ser franca. Tenho a dizer, no entanto, que fiquei aterrorizada com os deadlines e, podendo, acho que só volto a propor uma história a publicação depois de ter tudo absolutamente escrito e re-re-revisto! Por outro lado, a publicação do livro permitiu-me falar em escolas, com crianças dos 6 aos 17 anos (o que me aterrorizou desde o primeiro dia!) mas também com os seus professores. Nos mais novos, espero ter conseguido despertar o interesse pela leitura e, quem sabe, pela escrita. No que aos professores diz respeito, o meu maior objectivo terá sido, talvez, incentivar ao desenvolvimento de períodos de escrita criativa, principalmente na primária e no ensino básico. Eu tive a sorte de encontrar alguns professores de português que fossem adeptos da escrita criativa e do momento de leitura em sala de aula. Seria justo que outras crianças tivessem esse privilégio também.

4 – Como é ser escritora, particularmente do género Fantasia, em Portugal?

R: Caro, é a primeira palavra que me vem à cabeça. Fantasia não é género literário para ser publicado por editoras pequenas ou de pouco capital, pois poderá ser a ruína da editora e do próprio autor. Eu fui convidada a publicar por uma editora pequena e muito nova na altura – e que fechou no ano seguinte. Se me fosse feito o mesmo convite hoje, sabendo o que agora sei, provavelmente teria recusado. Quando publiquei, tinha 17 anos, o sonho de publicar a minha história e muito pouca noção dos custos que isso envolveria. O facto é que, normalmente, quando falamos de livros de fantasia, estamos a contar, mais ou menos, com 300/350 páginas. E este é o mínimo de páginas que os livros do género nas minhas estantes têm. A “A Espada de Jardax” conta com 432 páginas. Definitivamente não seria o tipo de livro que uma editora acabada de nascer devesse publicar. Ainda assim, arriscámos, e o livro acabou por ficar com o preço exorbitante de 20€ para cobrir os custos e evitar dívidas. Estou em crer que numa editora maior e com um departamento experiente e concentrado em fantasia e ficção científica o resultado teria sido diferente. Outra coisa que acho que faz falta no mundo editorial português (e que vejo ser de consenso geral em blogs literários e na comunidade booktube portuguesa) é marketing. Hoje em dia praticamente não há qualquer tipo de campanha feita às publicações, principalmente, no género fantástico. Quando Eragon ou o Crepúsculo, por exemplo, chegaram a Portugal, lembro-me de ver cartazes espalhados pela cidade, de ver anúncios na televisão e entrevistas no telejornal com os autores e as editoras. Agora já praticamente não vejo nada disso, e acho que faz muita falta.

5 – Tem outras obras publicadas ou que gostaria de vir a publicar?

R: O primeiro volume de “A Espada de Jardax” foi o único livro que publiquei até hoje. Tenho várias obras completas, mas que não quero que saiam da gaveta. Uma delas é a primeira trilogia que escrevi quando tinha 10/11 anos inspirada no Harry Potter que, hoje em dia, acho absolutamente adorável. Esses três livros têm um lugar muito especial no meu coração e, sinceramente, não quero partilhá-los com muita gente. Tenho outros dois rascunhos iniciados, mas quem sabe quando voltarei a pegar-lhes.

6 – Quais os seus objetivos e sonhos para o futuro, quer na escrita, quer no geral?

R: Gostaria muito, muito de reescrever o primeiro volume de “A Espada de Jardax”. É nisso que tenho andado a trabalhar nestes últimos anos. A conseguir terminá-lo realmente, então darei continuação à trilogia. Eu sou uma escritora impulsiva e inconstante, escrevo quando tenho vontade – que normalmente vem quando não tenho nem tempo, nem lugar, para me concentrar (obrigada, musas!) – e por isso, sou incapaz de dizer o que vai acontecer. Posso garantir, no entanto, que “A Espada de Jardax” é a minha história, é a história com a qual sonho todo o dia e que me tira o sono todas as noites. Sei ser a história que nasci para contar, só tenho de encontrar a melhor forma para conseguir passá-la ao resto do mundo.

Para conhecerem um pouco mais sobre a obra, cliquem aqui.

12059401_942376255808517_975034407_o

Resta-me agradecer à Joana pela disponibilidade e simpatia em partilhar connosco a sua história. Que, certamente, terá outros capítulos, de imaginação e de escrita, influenciados pelos voos que a sua vida ainda lhe reserva e que, para onde quer que vá, levam sempre o gostos pelos livros…

Espero que tenham gostado de mais uma publicação d’A Toca do Nunca, e espero reencontrar-vos numa próxima 😉

Advertisements

4 thoughts on “Encontros de Escrita | O Mundo Fantástico de Joana Lopes

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s