#17 A minha experiência com… A morte de Ivan Ilicht, de Lev Tolstói

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Hoje venho falar-vos de mais uma das minhas estreias literárias. Uma estreia que me surpreendeu bastante, pela positiva. Uma estreia que se deveu, essencialmente, à partilha de opiniões e sugestões entre bloggers e youtubers. Trata-se de uma das obras-primas de Lev Tolstói, mas não uma das mais conhecidas. De facto, e como sou fascinada pelos clássicos, tenho a ambição de um dia ler grandes clássicos russos, como “Anna Karenina” e o épico “Guerra e Paz” do mesmo autor. Mas acabei por experimentar este primeiro, um livro de menos de 100 páginas, que prende logo nos primeiros capítulos, e prossegue numa intensidade crescente até ao final esperado, mas tocante.

O primeiro capítulo de “A morte de Ivan Ilicht” descreve o seu funeral, no qual o leitor se depara com um clima de hipocrisia. Na verdade, pouco conhecemos da personagem principal, pois o autor esmiúça, propositadamente, as encenações em torno da sua morte. Quero com isto dizer que se assiste a um velório de fachada e falsidade, no qual muito rapidamente os pensamentos de todos resvalam para os benefícios de que irão usufruir. Logo a seguir, dá-se uma analepse, na qual conhecemos Ivan Ilicht, quais as suas origens, o seu percurso académico e profissional, a história do seu casamento, e adivinhamos algumas das suas mágoas e dificuldades. Mas eis que, muito rapidamente, chega o presente, os meses prévios à sua morte. Ivan Ilicht, depois de conseguir um novo cargo como juiz em Petersburgo, muda-se com a família para uma nova casa na cidade. Ao restaurar o edifício, sofre uma queda, à qual se atribui a causa da doença que o vitimou. Desde aí desenvolve-se uma doença que permanece sem diagnóstico, e que progride até o deixar totalmente debilitado e dependente. É então que, privado da sua rotina laboral, vê-se condenado à solidão. Sente como que uma mentira à sua volta que, a par da dor, não pára e o leva ao desespero. Neste definhar irreversível, Ivan começa a questionar o sentido da sua vida, dando-se conta que não foram tantos os momentos de felicidade quanto gostaria. Assim, apesar de o seu instinto de sobrevivência o manter vivo, Ivan prefere morrer. O livro termina no momento da sua morte, um momento de tal forma impressionante que sentimentos o sofrimento acabar… e uma nova sensação de paz.

Eu parti com poucas expectativas para este livro, apenas curiosa pelo tema e pela forma como a história estava contada. No entanto, este livro prendeu-me, suscitando em mim uma enorme compaixão pelo sofrimento desta personagem. Não só o físico, mas principalmente “o moral”: a solidão a que o votam nos últimos dias da sua vida é chocante, sendo uma retrato crítico brilhante à sociedade russa da época. E que, no fundo, não deixa de ser actual e semelhante ao nosso contexto: uma sociedade em que, mais do que o mérito, valem os conhecimentos e cunhas. Assim, Ivan, também ele um peão neste jogo, sofre na pele a hipocrisia de todos quantos sofrem a sua morte mas não a lamentam verdadeiramente (incluindo a sua família). Mas, para além da sua contextualização temporal, este livro possui um carácter universal, já que é questionado o sentido da vida. É uma dimensão da obra que seria quase inevitável, mas que Lev Tolstói aborda de forma genial, já que descreve de forma sensível e verosímil o conflito entre vida e morte, entre esperança e desespero, que Ivan vivencia. De facto, o seu instinto guia-o para a esperança, mas progressivamente dá-se conta de que já não tem uma vida para a qual queira voltar, e já só anseia que a dor (e a mentira) terminem, gritando incessantemente.

Por último, a escrita de Lev Tolstói, pelo menos nesta sua obra, é complexa, mas fluída, na qual cada frase puxa a seguinte e, compulsivamente, queremos seguir a história até ao final. O que me deixou muito satisfeita, e com esperança de que a leitura das restantes obras, substancialmente mais longas, seja agradável. Por isso, esta foi mais uma boa experiência de leitura, “com o patrocínio” da comunidade portuguesa de bloggers e booktubers literárias, que muito tem enriquecido o meu leque de leituras. Aconselho a todos!

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Classificação: **** (Muito Bom)

Link no Goodreads:https://www.goodreads.com/book/show/18386.The_Death_of_Ivan_Ilych

E vocês? Quais as leituras que mais gostaram fruto das sugestões de bloggers e booktubers?

Espero que tenham gostado de mais uma partilha, e cá vos espero num próximo post! 😀


Editora: Colecção Biis Leya (http://bisleya.blogs.sapo.pt/)

1ª Edição: 1886 (Original)

Páginas: 96

Apresentação: Capa mole

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