#5 Introspecções | “Se me restasse uma hora para viver…” Finalmente, viveria!

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Hoje venho falar-vos de um pequeno livro intitulado “Se me restasse uma hora para viver”, de Roger-Pol Droit. O livro não conta com mais de 68 páginas e é como que um exercício de reflexão. De facto, o autor coloca-se na situação hipotética de lhe restar uma hora para viver, caminhando, ao longo desses 60 minutos, em direção aos factos incontornáveis da nossa existência. Como filósofo, discute e contrapõe até algumas das suposições básicas desta disciplina, à medida que vai contornando um conceito mais claro do que representa a vida humana. Com uma escrita única e singela, e sem qualquer tipo de pretensiosismo, Roger-Pol Droit reduz a vida à sua essência.

já não há futuro

dentro de uma hora estarei aliviado de uma montanha de projecções, de preocupações, de inquietações, de pressões” (pg. 15)

De facto, a nossa existência parece circunscrever-se, desde logo, por limites: limites de tempo, de espaço, de cultura, de expectativas, de significados. Há um passado que nos condiciona, um futuro que nos move, inquietando-nos ou entusiasmando-nos… ou ambos. O futuro traz horizontes, de sonhos e expectativas. É um horizonte que nos permite ir gerindo as nossas tarefas, os nossos propósitos. Permite-nos estabelecer metas, metas essas que acreditamos trazer-nos felicidade. E permitem-nos irmo-nos “preparando” para o longínquo dia em que todo este organismo que sustém este “teatro da vida” deixar de operar… São metas que afastam de nós a total satisfação com a vida, mas que acreditamos que nos conduzirão até lá.

metas

O presente, esse, quantas vezes parece fugir-nos da nossa consciência, esmagado pelo que nos prende ao passado ou nos “suga” do futuro. O presente é, no entanto, tudo o que nos restaria para viver, se soubéssemos que tínhamos apenas mais uma hora de vida. Pânico… ou libertação? E o que fazer com o tempo que resta?

“se tivesse apenas uma hora para viver escolheria a escrita como um artifício contra a morte,

pobre artifício, limitado, quase débil, talvez patético, no seu género,

mas longe de ser ineficaz ou absolutamente débil” (pg. 29)

Porquê esta escolha? Quando, em 60 minutos, muitas vezes conseguimos encaixar tantas mais coisas, para quê “desperdiçar” a hora mais importante das nossas vidas numa única tarefa?

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É aqui que começo a introduzir a minha interpretação particular deste ensaio. O autor divaga, então, por vários tópicos, deixando-me até com uma sensação de desilusão, face ao que esperava que fosse abordar este livro. Porém, ao mesmo tempo, ele tornou-se mais verosímil aos meus olhos, mesmo que eu não tenha compreendido toda a mensagem que o autor pretendeu transmitir… Transmitir, aliás, é uma palavra-chave na forma como ele escolhe passar a sua última hora de vida. Na escrita, a sua existência permanece para lá do seu corpo físico. Permanece, já sem pretensões de tudo compreender, de tudo saber, e de atingir a felicidade total.

Nós, seres humanos, temos esta tendência de contar histórias, o mais coerentes e unificadas possíveis, cada vez mais claras, e menos dúbias. A nossa obsessão pelo conhecimento, de chegar à verdade sobre todas as coisas, impele-nos a uma existência paradoxal: em que, por um lado, tentamos transpor todos os limites e, por outro lado, estabelecemos esses limites à priori. O conhecimento faz-se, em boa parte, das expectativas de quem o procurou e o transmitiu e, como tal, nunca abarca a total multiplicidade de realidades que nos cercam. Uma parcela de ignorância acompanha-nos sempre e, no entanto, é possível adquirir-se sabedoria sobre a vida. Quiçá, na derradeira hora.

“desejo enraizado em todos os seres humanos, independentemente da sua sociedade, da sua cultura, da sua educação, desejo tão poderoso que viver é inevitavelmente sinónimo de aprender, de descobrir todos os «porquês» possíveis, uma série de conhecimentos práticos, teóricos, científicos, morais, artísticos, elaborada sobre a natureza e as relações que os seres humanos desenvolvem uns com os outros

nestas condições, como afirmar que não sabemos grande coisa?

e ainda que isso não é grave?” (pgs. 33-34)

Pois, então, o que é, realmente, a vida humana? O que é viver?

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“as respostas impõe-se como evidências sensíveis, sensações, factos tão presentes como a cor do céu, a força do vento, o calor do fogo

levei muito tempo a compreender que é assim,

que não há nada a compreender e há tudo a sentir,” (pg.67)

Numa sociedade como a atual, em que a optimização do indivíduo com base nos seus patamares de educação, no seu currículo, na carreira, nos níveis de produção, de intercomunicação, estão na ordem do dia e no cerne do sucesso, prometendo a felicidade, parece haver pouco espaço para o fluxo da vida: a complexidade do presente, nos sentidos, sensações, sentimentos, aceitando sem julgamento o seu curso tal como ele é. Escolhendo a vida como dádiva, de múltiplas experiências, de dor, amor… Não a desvalorizando por tudo o que nela não coube. Não nos desvalorizando a nós próprios por sermos meros organismos vivos, e não máquinas perfeitas.

Para mim, esta foi a mensagem que Roger-Pol Droit transmitiu, numa altura em que, depois de anos de mudanças e amadurecimento, chego à idade adulta com uma série de expectativas para o futuro (de carreira, de educação), mas luto para, no meio de tantos objectivos, permanecer viva. Reencontrar sempre a vontade de viver, de sentir, de me entregar, nem que seja por breves segundos, às pequenas alegrias do dia-a-dia, depois de horas de tensão, inseguranças, coragem e bom senso. Para chegar a ser “alguém”, mas também não morrer ao tentar cumprir os “requisitos”.

Porque eu não quero morrer agora! Nem espiritual, nem fisicamente. Mas, se agora, me restasse apenas uma hora para viver, morreria feliz. Encontrei na vida tanto amor, que até podia distribuí-lo. Encontrei dentro de mim amor, por mim e pelos outros. Pela humanidade. Encontrei-me a mim, e amei-me. Encontrei a minha voz, e coloquei-a ao dispor da minha criatividade. Encontrei vontade de viver, prazer por viver… Pouco importa o que ficaria por fazer depois disso, importa foi que consegui sentir e alimentar isso. Morreria feliz, captando as bonitas cores que o por-do-sol lança nas árvores que vejo da minha janela, como contemplava quando era criança. Morreria, contra a minha vontade, mas feliz. A sofrer, mas feliz… até porque se sofro, sou ainda capaz de sentir. Morreria, então, feliz… porque morreria viva!

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Classificação: **** (Muito bom)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/22026790-si-je-n-avais-plus-qu-une-heure-vivre

Espero que tenham gostado de mais uma instrospecção e que, mais uma vez, ela vos possa ter enriquecido 🙂

Beijinhos e até ao próximo post!


Editora: Planeta (http://www.planeta.pt/)

1ª Edição: 2013

Páginas: 72

Apresentação: Capa mole

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