#4 Introspecções | Filho de peixe sabe nadar…

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Olá a todos, e sejam bem-vindos a mais um texto da rúbrica “Introspecções”, que hoje parte do livro “O Velho e o Mar”, publicado em 1952, pelo premiado do Nobel da Literatura Ernest Hemingway.

Antes de mais, deixem-me só (re)lembrar que o objectivo desta rúbrica, bem como de outras aqui n’ A Toca do Nunca, é o de partilhar as leituras que faço, em termos da minha percepção pessoal quanto ao livro e aquilo que este me transmitiu. Devo reforçar que eu não sou crítica literária, pois não tive formação para tal, nem tão pouco filósofa; sou apenas uma cidadã apaixonada por livros, com o sentido crítico que a minha experiência de leitora e de pessoa acarreta. É minha convicção de que as minhas apreciações são válidas pelo que são, e sinto uma necessidade cada vez maior de partilhar convosco as mesmas. Mas espero que as julguem sempre tendo em conta estas condições.

Faço também esta introdução para explicar que as Introspecções de hoje serão particularmente pessoais. Porque, na verdade, não vos consigo falar deste livro de outra forma, e decidi fazê-lo assim mesmo. De facto, eu tive dificuldade, primeiro, em classificar a minha experiência com este livro e resumir o que entendi dele. Em segundo lugar, tive dificuldade em assumir que o que estava por detrás dessa dificuldade era o facto de eu encontrar nele uma grande identificação com dilemas que eu própria estou a viver. Depois de o descortinar, foi mais fácil perceber aquilo que queria dizer, e assumir que poderá não ser o mais preciso acerca do livro. Por isso, se alguma das minhas interpretações for muito ao lado daquilo que, consensualmente, se interpreta sobre “O Velho e o Mar”, peço que se recordem que estas são apenas as perceções, muito pessoais, de uma leitora comum…

Em “O Velho e o Mar” acompanhamos um velho pescador, Santiago, que há já 84 dias voltava do mar sem apanhar um único peixe. Ele vai mais uma vez para o alto-mar, e luta pela sobrevivência na captura de um espadarte. O velho derrota a sua respeitada vítima, porém, na viagem de regresso esta é atacada por tubarões. Por fim, chega a terra, esgotado, e do peixe restam apenas a cabeça, a espinha e a cauda, como símbolo da vitória sofrida.

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“«Tu estás a matar-me, peixe», pensou o velho. «Mas tens todo o direito. Nunca vi uma coisa maior, ou mais bela, ou mais serena ou mais nobre do que tu, meu irmão. Vem e mata-me. Não quero saber qual de nós mata.»

«Agora estás tu a perder a cabeça», pensou. «E não deves perder a cabeça. Não a percas, e aprende a sofrer como um homem. Ou como um peixe.»” (pg. 69).

De facto, a leitura deste livro, para mim, não foi de todo entusiasmante ou refrescante. Foi antes marcada pela nostalgia, e por uma persistente sensação de que este longo conto retrata todo o sofrimento da vida: a luta (in)glória pela vida, pela afirmação pessoal, pela sobrevivência… por nos mantermos à tona. Por caçarmos os maiores peixes.

E de que depende esta nossa pesca (dos nossos sonhos)? Será da nossa competência? Trabalho? Será da sorte?

“«Mas», pensou, «eu aguento-as com precisão. O que já não tenho é sorte. Quem sabe? Talvez a tenha hoje. Cada dia é um novo dia. É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exacto. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela.» (pg.26)

E será que é sempre uma sorte cumprirmos os nossos sonhos? Os nossos planos? Ou também é sorte sermos guiados para outros caminhos (quem sabe, para alto-mar), não imaginados, mesmo que isso nos faça, nalgum momento, sofrer de frustração?

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É que… sabem? Eu tenho sentido que estou a chegar ao fim de um caminho. Um caminho que planeei e que, no percurso, me transformou. Ao transformar-me, revelou-me coisas que eu desconhecia ou não valorizava, de mim e dos outros. Coisas que não posso mais ignorar, e que me apontam novas direcções, as quais ainda não ouso percorrer. Mas não sem deixar um manto de tristeza pelos sonhos que morreram, pelos sucessos roubados, pelos planos conspurcados. Falo-vos, concretamente, do meu percurso académico/profissional, na área da Psicologia, para o qual parti cheia de determinação e certezas. As dúvidas sossegava-as com a ilusão de que o mérito tudo resolveria… Porém, no contacto entre o sonho e a realidade, o eu transformou-se, e os sonhos também… Por isso, continuo a gostar de Psicologia, mas já não sei se quero, propriamente, ser psicóloga. Exploro outros gostos, e traço novos planos sobre como poderei rentabilizá-los. Exploro o medo de me fazer ao mar e a sorte não me ajudar… Tento ganhar coragem para lançar a rede e caçar novos peixes. Tento gerir a incerteza, cada vez mais consciente de que estamos todos neste mesmo barco…

“«Não há bem que sempre dure. Quem me dera que tivesse sido um sonho, que eu não tivesse pescado o peixe e estivesse sozinho na cama, em cima dos jornais.»” (pg.77)

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Quem procura, ou quem sente a necessidade de ser exacto no peixe que quer, vive em constante ambivalência. Nunca é cem por cento certo que aquele peixe valha a pena, só é certo que a dúvida seja um estado permanente. Primeiro ela é uma sensação assustadora, que nos rouba toda a energia. Depois vamos percebendo que ela é natural e lógica, e conformamo-nos a lançar a rede ao mar as vezes que forem necessárias, aconteça o que acontecer. E, com o tempo, aprendemos que a esperança é o mais importante, sustendo-nos desde as ondas agitadas da costa até à calmaria do oceano.

“«É tolice não ter esperança», pensou. «Além de que suponho que é pecado. (…)» (pg.78)

Por isso, quero acreditar que, na vida, pode haver batalhas perdidas, vitórias injustas e mesmo lutas inglórias. Mas a sabedoria que delas se extrai torna a vida, como um todo, numa vitória. Sofrida, sim… mas que vale sempre a pena, se aprendermos a nadar nas suas águas. No fundo, quero acreditar que, no final deste furacão de transformações que atravesso, tomarei um rumo do qual não sei precisar o norte. Mas será, com certeza, um rumo mais sábio e amadurecido, fruto do sofrimento e da esperança. E espero saber aproveitar a sorte, quando ela vier…

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Classificação: *** (Bom)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/2165.The_Old_Man_and_the_Sea

E vocês, já leram O Velho e o Mar? O que vos transmitiu?

Espero que tenham gostado destas minhas instrospecções, tão pessoais, sobre este livro, e até ao próximo post! 😀


Editora: Colecção Mil Folhas (Público)

1ª Edição: 1952 (Original)

Páginas: 95

Apresentação: Capa dura com sobrecapa

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