#8 A minha experiência com… A rapariga-corvo, de Erik Axl Sund

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Março foi um mês de grandes leituras e, neste sentido, venho falar-vos do 1º livro da Trilogia “As faces de Victoria Bergman” de Erik Axl Sund. De facto, o último volume, “As instruções de Pitonisa”, já foi editado em Janeiro deste ano pela Bertrand Editora, e foi quando conheci esta obra. Cativada pela promessa de uma trama pesada mas bem construída, uma abordagem séria e fiel aos assuntos retratados e uma escrita de qualidade, decidi que queria ler os três volumes. Ao começar o primeiro, não pude deixar de pensar: “Onde é que eu tinha a cabeça quando pensei em ler isto?!”… Mas tenham calma, não é o que estão a achar. É que o género policial não é dos meus favoritos. No entanto, só agora constato que até é um daqueles que eu leio com regularidade. Isto não parece fazer muito sentido, mas faz. E “A rapariga-corvo” é prova mais clara que tive até hoje: o segredo está na capacidade de, progressivamente, este género nos prender à narrativa, fazendo de nós mais uma personagem que se encontra à caça do mistério, e que se questiona sobre os motivos para o crime…

Este livro é um thriller policial, que decorre em Estocolmo, nos nossos dias. Nele acompanhamos a psicoterapeuta Sofia Zetterlund e os seus dois pacientes, ambos com transtorno dissociativo da personalidade: Samuel Bai, um menino-soldado da Serra Leoa, e Victoria Bergman, uma mulher que tenta lidar com abusos sofridos na infância. Acompanhamos, também, a agente policial Jeanette Kihlberg na investigação atribulada de uma série de violentos homicídios de meninos estrangeiros. Estes acontecimentos levam a que as duas mulheres se aproximem, à medida que muitos dos segredos são revelados e todos somos confrontados com a mesma pergunta: “quanto sofrimento pode um ser humano suportar antes de se tornar ele próprio um monstro?”

Quanto a esta questão, e dada a minha experiência pessoal e académica, parece-me que o sofrimento tem a sua função na vida humana, sendo algo de comum a todas as pessoas. É útil para crescermos, e de certa forma, é até necessário aprendermos a sofrer, aceitando que isso faz parte da vida e aprendendo a distinguir o essencial do acessório (se ficaram intrigados com esta questão, vejam este vídeo). No entanto, quanto a mim, o que este livro nos mostra é que a peça fundamental para sairmos dele mais amadurecidos e mentalmente saudáveis é não perder a esperança. É termos algo que nos indique que ainda vale a pena acreditar na bondade do outro. Mas o que este livro explora, de forma brilhante, são os limites da maldade pura e crua, e o quanto estarmos expostos a essa maldade, principalmente desde muito cedo, pode transformar um ser humano. Pode fazê-lo deixar de acreditar na bondade do outro, de relaxar e permitir-se ser feliz. Estando refém dos medos e da necessidade de controlo mais extrema. Perdendo o lado humano, tornando-se um monstro.

Mas falando da minha experiência de leitura, devo dizer que não fiquei agarrada desde o início, nem se tornou num dos meus livros preferidos. De facto, o complexo cruzamento de histórias, entre passado e presente, foi difícil de gerir. A escrita também não me agradou em particular, embora ache que se adeque aos seus propósitos e ao estilo. Porém, à medida que a narrativa foi ficando mais intensa, fui gostando cada vez mais, e fiquei mesmo surpreendida com os desenvolvimentos que se deram. Alguns dos quais não me convenceram totalmente, mas isso fica para os próximos volumes…

Para além do tema da violência, outro aspecto que apreciei bastante em “A rapariga-corvo” foi a forma como os autores exploraram as vidas familiares das duas personagens principais, descrevendo de forma simples mas honesta o vazio emocional em que se encontravam. Assim, foi um bom acréscimo à temática central, já que serve para complementar a crítica que, no fundo, o livro encerra à sociedade atual, ainda assente na homogenia e preconceitos de género.

Assim, e para não me alongar mais, devo dizer que não indicaria esta obra a toda a gente, uma vez que há descrições cujo horror se manifesta nas nossas entranhas. Não desaconselho que experimentem, até porque estão a perder um livro de muita qualidade, mas cada um deve julgar por si, tendo em conta a sua sensibilidade. E, apesar de eu mesma ter tido dificuldade em digerir algumas dessas cenas, estou muito curiosa para saber o que vai acontecer em “Fome de Fogo”!

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Classificação: *** (Bom)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/11031910-kr-kflickan


Editora: Bertrand Editora (http://www.bertrandeditora.pt/)

1ª Edição: Março de 2014

Páginas: 361

Apresentação: Capa mole

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