#3 Introspecções | Cinquenta Sombras do Amor

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O sexo, com os seus mitos e tabus, desmistificados ou não, tem sido um assunto de um crescente destaque nas redes sociais e meios de comunicação, na última década. Nomeadamente, fenómenos literários como “As 50 Sombras de Grey” de E. L. James, e independentemente das críticas que lhe possam ser feitas, têm permitido que a sexualidade seja cada vez mais valorizada no seio das relações humanas.

O livro sobre o qual se baseia este “Introspecções” não é o referido best-seller, mas antes aborda a sexualidade do ponto de vista da conceituada socióloga Esther Perel, “Amor e desejo na relação conjugal”. Contudo, o seu título em inglês retrata melhor aquilo que Perel nos quis transmitir, a ideia de que o sexo nas relações vive, muitas vezes, enclausurado. “Mating in captivity: Reconciling the Erotic and the Domestic” foi um livro que li em pouco tempo e, que apesar de ser técnico, tem uma enorme fluidez, através de muitos exemplos clínicos. Focando-se numa das minhas áreas predilectas e na qual gostaria, um dia, de intervir, este livro serviu-me como enorme fonte de inspiração na forma de conceber e pensar sobre as relações: quais as linhas com que se cosem, exactamente, o amor e o desejo, a atracção e o afecto, na vida real.

Porém, li-o também numa altura em que a minha própria relação amorosa atravessava alguns desafios, há medida que os primeiros tempos, dos píncaros de paixão e desejo, se afastavam e davam lugar a ajustes e outras expectativas. Numa altura em que eu própria, já no início da idade adulta, abandonava as ilusões de uma rapariga adolescente e me questionava sobre o que define as relações de intimidade.

               De facto, de que são feitas as relações românticas? De que é feito o amor?

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“Somos contradições sobre pernas: por um lado, procuramos o seguro e o previsível, e, por outro, regalamo-nos com a diversidade.” (pg. 26)

As relações de intimidade são algo de essencial nas nossas vidas. Mesmo quem opta por ficar solteiro, já necessitou ou ainda necessita de, pelo menos, um tipo de relação íntima: a relação com os seus pais. A bem do nosso desenvolvimento pessoal, necessitamos das relações de proximidade, onde construímos a nossa identidade e auto-estima, onde nos sentimos seguros para poder explorar o mundo, e para poder regressar sempre que as coisas não correm bem. No entanto, nunca se valorizou tanto a intimidade como hoje em dia no seio das relações românticas. Se, há umas décadas atrás, um bom marido seria aquele que traz o sustento, que é um bom pai, que é um homem honrado, hoje em dia é exigida uma maior criatividade e dedicação. Hoje em dia “esperamos que o amor nos proporcione uma experiência transcendente que nos permita voar para lá da nossa vida banal.” (pg.26). E, de certa maneira, as formas de se conseguir esta transcendência passam pela ênfase na comunicação verbal das emoções, por um lado, e, por outro lado, pela qualidade da vida sexual.

“A convicção predominante na moderna terapia matrimonial na América é de que o sexo constitui uma metáfora da relação: compreende o que se passa emocionalmente e poderás inferir o que se passa na cama.” (pg. 42)

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Deste modo, o sexo tem sido elevado ao estatuto de barómetro das relações. A satisfação sexual é hoje tida, felizmente, como um direito, o que também faz com que a sexualidade, mais do que algo que nós fazemos, seja parte do que somos, da nossa identidade. E, por todo o lado, proliferam imagens, informação, dicas e sugestões sobre em que consiste uma boa vida amorosa e sexual. Porém, a ansiedade de colocarmos grandes expectativas numa relação e numa pessoa (muitas vezes, quase incompatíveis entre si), dificulta a nossa capacidade de sentir e desfrutar do prazer. Isto porque a nossa auto-estima, o sermos alguém bem-sucedido no amor, está dependente de uma total empatia e de uma vida erótica escaldante, difíceis de atingir na perfeição. Essa dependência, essa exigência, traz ansiedade para a relação, o que mina o desejo.

“(…) o erotismo dentro de casa exige um empenho activo e uma intenção deliberada. Constitui uma resistência constante à mensagem de que o casamento é uma coisa séria, de que exige mais trabalho do que brincadeira, e de que a paixão é para os adolescentes e para as pessoas imaturas.” (pg.222).

É claro que a vivência saudável e descontraída do sexo e do erotismo depende de muito mais do que isto, mas também da nossa própria educação sexual, de outras preocupações que interferem na vida diária, e mesmo as crenças na durabilidade das relações. Porém, o que se assiste atualmente é ao exacerbar das expectativas em todas as áreas de vida, em particular, as que nos são mais essenciais para o nosso equilíbrio emocional e psicológico, o que é, naturalmente, desgastante. Além disso, confunde-se empenho com trabalho sério e sacrifício, quando, na verdade, o que faz a diferença é a liberdade. Ou seja, o estar-se envolvido, interessado, motivado naquela relação, alimentando as coisas boas que dela ambos os parceiros retiram.

Como o fazer? Não sei exactamente, e o livro apenas avançou com exemplos específicos de casais, mas cada um deve descobrir aquilo que lhe faz mais sentido. No entanto, parece-me que colocar pressão não é, de todo, a solução.

Assim, depois de ter lido este livro, continuei com muitas dúvidas, e eu e o meu namorado ainda atravessamos muitos desafios juntos. Porém, terminei-o com um sentimento de leveza, de descontração, porque, no fundo, uma relação é:

“(…) uma coisa viva e contínua, não como um facto consumado. É uma história que estão a escrever juntos, uma história que tem muitos capítulos e que nenhum dos dois sabe como vai acabar.” (pg.222)

Mas que, diria eu, cabe a cada membro do casal o poder de decidir como querem escrever essa história: na dependência um do outro, ou na liberdade para se descobrirem e se amarem pelo que são.

Classificação: **** (Muito bom)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/27485.Mating_in_Captivity

E vocês, que opinião têm sobre o sexo e o desejo nas relações românticas atualmente?

Se quiserem ficar a saber mais sobre este tópico, aqui está um vídeo de Esther Perel a falar sobre o desejo.

Vemo-nos num próximo post! 😀


Editora: Editorial Presença (http://www.presenca.pt/)

1ª Edição: 2008

Páginas: 245

Apresentação: Capa mole

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