#2 Introspecções | Ele que encontrou o sentido da vida…

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De acordo com o Sanscrito, “Siddha” significa “encontrado” e “Artha”, “o que procurou”. Reler “Siddhartha”, do prémio Nobel Hermann Hesse, é algo que vou procurar fazer para o resto da vida. É, definitivamente, o livro da minha vida. Li-o, pela primeira vez, há 10 anos atrás, com 14 anos. Nesse primeiro contacto fascinou-me, embora mal me recorde do que retive dele então. Talvez a mera sensação de que, mais tarde, ao longo de diferentes etapas da minha vida, o iria compreender cada vez melhor.

Agora, reli-o pela segunda vez. Uma década mais tarde, chego à conclusão que, naquele tempo já assimilara muito do seu significado. Porém, só agora o valorizo, fruto de um empoderamento recente, que me trouxe a possibilidade de ser eu a segurar as rédeas da minha vida.

Porque este livro faz-nos percorrer, em cento e cinquenta e três páginas, a viagem existencial que comporta a vida humana. A vida de Siddartha é o rumo, a sua sabedoria esconde-se atrás das palavras.

“Podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria. Podemos encontrá-la, podemos vivê-la, podemos ganhar importância com ela, podemos fazer maravilhas com ela, mas não podemos comunica-la e ensiná-la.” (pg. 144)

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De facto, o mais importante, e que me escapou nas anteriores leituras, prende-se com a óbvia constatação de que muitas coisas podem ser ensinadas, mas ninguém nos pode ensinar a viver a nossa vida. O senso comum reconhece, inúmeras vezes, que há uma “Escola da Vida” impossível de traduzir em manuais, em diapositivos, em sebentas de apontamentos… em doutrinas. Durante estes anos, recordei este livro como sendo um livro sobre o sentido da vida, culminando num equilíbrio entre o luxo e a pobreza, entre o exacerbamento dos prazeres e a máxima carência. Culminando na descoberta da unidade da vida e do mundo, do que nos une a todos. Durante muitos destes anos após a descoberta deste livro, continuei, fruto também da minha imaturidade, a necessitar de retirar dele uma doutrina. Porque continuava a procurar a minha doutrina, a minha verdade, a minha sabedoria, no exterior. A valorizar o exterior, e a enfraquecer a minha própria voz. A capacidade da minha própria mente, da minha própria alma, de se guiar. De escutar. Livremente.

“Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos.” (pg. 142)

Na verdade, este livro rejeita qualquer obstinação, qualquer dependência das doutrinas. Numa sociedade em que prolifera tanta informação e em tantos sentidos, em que somos estimulados a alcançar sempre mais e mais, em que o não ter pressa de chegar é punido com sinónimos de falta de proactividade e de insucesso (entre outras suposições), damos por nós (quem preservar sensibilidade para tal), a certa altura das nossas vidas, perdidos, confusos, desesperados por uma doutrina. Nomeadamente, numa época em que se rejeitam tantas das que anteriormente eram dogma. Por isso, “instruções” de auto-ajuda, “receitas” para a felicidade, sob os mais variados formatos de comunicação, proliferam, e parecem lançar luz sobre o caminho para sairmos do ciclo penoso da vida e sermos felizes para sempre. Porém, estas “novas” doutrinas, mais ou menos interessantes, mais ou menos perigosas, mais ou menos correctas (enfim, façam-se as considerações que se quiserem), nunca deixam de ser as doutrinas dos outros. A sabedoria dos outros. Ela pode ser traduzida em conhecimentos, mas nunca pode ser conhecida tal como ela é.

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“Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras. Talvez seja isto que te impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras, Govinda. Nada existe que seja o Nirvana; apenas existe a palavra Nirvana.”

Nisto, persistimos em procurar doutrinas no exterior, em depender exclusivamente dos outros para decidirmos sobre a nossa própria vida. Não quero com isto dizer que não possamos aprender com os outros, e que esse conhecimento não nos seja útil. Mas não nos tornamos mais sábios dependendo das suas palavras para nos guiarmos. Porque as palavras nunca conseguem comportar o verdadeiro significado do que existe. Ao reificarmos o que existe em palavras, estamos como que a fragmentar o seu significado em partes, e cada um descobre uma parte. O processamento cognitivo parece ser, assim, limitativo, se cingirmos a nossa compreensão do mundo às palavras. Por muito que eu as ame, reconheço que há, tantas vezes, significados que elas não conseguem transmitir… Felizmente, temos outras formas de comunicação, temos outros sentidos.

Para além de tudo isto, parece-me que as “novas” doutrinas proliferam actualmente porque têm uma particularidade diferente das anteriores: são muito mais enaltecedoras do Ego. Elegem-no como elemento principal em torno do qual se desenhará a felicidade. A própria felicidade acaba por ser transportada para coisas muito diferentes, colocando-se à mercê do Ego, acima de todas as outras prioridades. Ora, não há coisa mais frágil do que o Ego. Principalmente, um Ego protegido, exacerbado, iludido. Este é o Ego da Generation Me, para os quais a chave de todo o sucesso e toda a felicidade reside numa boa auto-estima. A qual deve ser garantida seja de que maneira for. Mesmo que isso arrisque que ela venha a ser destruída da forma mais implacável.

Por isso, para finalizar, deixo-vos (sim…) com estas palavras… não há como escapar: https://www.youtube.com/watch?v=IvtZBUSplr4

E desejo que a vossa liberdade vos permita encontrar nelas algo que vos enriqueça.

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Classificação: ***** (Excelente)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/52036.Siddhartha

O que acharam deste texto? Qual a vossa opinião sobre este tema da Geração do Eu?

Gostaria muito de conversar com vocês sobre isto, por isso, convido-vos a comentar 😉

Beijinhos!


Editora: Casa das Letras (http://www.casadasletras.leya.com/pt/)

1ª Edição: 1922 (Original)

Páginas: 156

Apresentação: Capa mole

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4 thoughts on “#2 Introspecções | Ele que encontrou o sentido da vida…

  1. Que post fixe, Raquel!
    Desde pequenos que nos ensinam que somos uma identidade. Daí o nosso ego e a sua manutenção nos ser tão importante. Vamos procurar não dar a parte fraca; se criticarem o nosso trabalho vamos assumir uma postura defensiva e vamos procurar projectar sempre a melhor versão possível de Eu.

    A dada altura esquecemos, colectivamente, que somos mais que o ego. O homem do séc. XXI chutou o seu antigo criador para fora de equação e vê-se como um rasgo de ordem no meio de um mundo cheio de impulsos sem mente própria. Este rasgo sou Eu, preso a uma caixa que começa algures do pescoço para cima. Contudo, se nos lembrássemos de que somos também o sangue que nos corre nas veias, as artérias que o carregam e o coração que o bombeia, percebia-mos que somos um só com o amplo e contínuo processo a que chamamos vida, como a corrente das ondas. No fim ficava quase tudo na mesma, mas o Eu ficava bem mais leve.

    “This feeling of being lonely and very temporary visitors in the universe is in flat contradiction to everything known about man (and all other living organisms) in the sciences. We do not “come into” this world; we come out of it, as leaves from a tree. As the ocean “waves,” the universe “peoples.” Every individual is an expression of the whole realm of nature, a unique action of the total universe. This fact is rarely, if ever, experienced by most individuals. Even those who know it to be true in theory do not sense or feel it, but continue to be aware of themselves as isolated “egos” inside bags of skin.” – Alan Watts.

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    • Olá Rodolfo!
      Antes de mais, obrigada por um comentário tão rico e que me enche a alma, pelo cuidado e pela atenção que puseste nele. E fico também muito feliz por partilhares comigo as tuas reflexões 🙂
      De facto, em teoria parece tão fácil de fazer, bastaria abandonar esta necessidade de controlo que nos aprisiona. E, no entanto, na prática, é tão difícil, porque encerra uma postura tão diferente do mundo que conhecemos… A via da compaixão e da auto-compaixão parece-me que pode ajudar a descentrar do ego, aceitando que o que nos une aos outros é precisamente tudo o que de mais humano temos: o sofrimento, a imperfeição. Porém, e como eu descobri nesta releitura, não podemos depender das doutrinas dos outros. Podemos beber da sua essência, se de alguma forma ela ecoar na nossa consciência, mas devemos ser nós a guiar a nossa aprendizagem e desenvolvimento, sendo autores da nossa vida.
      Tens que ler Siddhartha, se quiseres empresto-te 😉
      Beijinhos

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  2. Pingback: Ruminações do Rodo #5 – Refletindo sobre duas estórias Zen | O Sujeito que Vive na Garagem

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