#3 A minha experiência com… Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

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Mrs. Dalloway representa a minha estreia com a obra da incontornável Virginia Woolf. Sendo esta “a grande obra” da escritora, e tendo como cenário a magnífica cidade de Londres, o romance reune vários elementos para ser a minha primeira escolha. Porém, não estava a contar com uma narrativa tão singular, uma escrita tão fora do vulgar, mesmo nos dias de hoje e, por isso, nem sei bem como vos falar sobre esta experiência. Mas vou tentar!

Desde logo, é importante referir que a acção de Mrs. Dalloway decorre num único dia de Junho, pelo que o tempo, nesta obra, assume duas vertentes: a cronológica (pautada pela marcação das horas aos toques do Big Ben) e a psicológica. Esta, ocasionada pelos encontros entre as personagens, produz o chamado “Fluxo subjectivo de consciência” que faz interagir o passado, o presente e o futuro através das recordações, desejos, e opiniões das personagens. Por isso, e através de uma maior liberdade entre discurso directo e indirecto, Mrs. Dalloway apresenta uma narrativa tão idiossincrática e uma escrita tão fluída, subvertendo por completo a narrativa tradicional. E este foi o aspecto que mais apreciei na obra, promovendo um carácter interessante e uma envolvência na acção sensacional.

Depois, o que retrata o livro? Nele acompanhamos Clarissa Dalloway, uma aristocrata na casa dos 50, muito bem casada com Richard Dalloway, e que se prepara para dar uma festa. Porém, à medida que a noite se aproxima, e com o aparecimento de Peter Walsh, o seu primeiro amor, as memórias da sua juventude, face às circunstâncias do presente, levam-na a tomar consciência das suas escolhas e da vida em seu redor. Como contraponto, Virginia leva-nos a acompanhar também Septimus Warren Smith, um homem à beira da loucura devido aos traumas da guerra (I Guerra Mundial), e que, depois de ter sido aconselhado pelo psiquiatra a partir para uma casa de repouso, acaba por cometer suicídio. De facto, Clarissa e Septimus parecem partilhar o mesmo sofrimento, mas cada um resolveu-o de forma diferente: Septimus expõem a sua dor ao mundo, enquanto que Clarissa a silencia sob uma falsa confiança. E somos levados a questionar qual dos dois agiu melhor, uma vez que a própria Clarissa conclui que “não o lamentava [o suicídio]”. Por todo este conflito central, este livro comporta também uma crítica feminista, já que nos confronta com o sofrimento de uma mulher que já teve sonhos e paixões (nomeadamente, as suas aventuras com a amiga Sally Seton) e que abdicou deles face ao contexto machista sob o qual estava submetida, acomodando-se passivamente.

Como já referi, gostei imenso da escrita e construção da narrativa. Porém, e não sei muito bem por que razão, senti que não consegui relacionar-me com nenhuma das personagens. Isso desapontou-me um pouco, pois deu-me a sensação de ler, e ler, e ler, e não chegar a lado nenhum… O que se agravou mais com o final em aberto, se bem que era o que estava à espera. No entanto, na verdade, senti que Clarissa merecia um pouco de compaixão. Fiquei com a sensação de que, apesar da sua frieza e racionalidade excessiva, era uma boa pessoa, e merecia algum tipo de consolação. Assim, o livro permanece neste vazio existencial, deixando-me uma sensação de angústia, de me ter escapado algo…

Finalizando, posso dizer que gostei de Mrs. Dalloway, mas não tanto quanto imaginava. Porém, penso que merece uma releitura, pois com certeza que estarei mais atenta a outros pormenores e terei uma outra compreensão da obra. Assim, é impossível não recomendar, uma vez que estamos perante um dos marcos da literatura do Séc. XX. Apesar de complexo, é um livro pequeno (200 páginas…) e lê-se bem. Por isso, experimentem!

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Classificação: *** (Bom)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/14942.Mrs_Dalloway

O que acharam desta opinião? Já leram alguma obra de Virginia Wolf?

Partilhem aqui nos comentários, e deixem também as vossas sugestões 😉

Beijinhos e até ao próximo post!


Editora: Clube do Autor (http://www.clubedoautor.pt/public/ClubeDoAutor/)

1ª Edição: 1923 (original)

Páginas: 208

Apresentação: Capa mole

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2 thoughts on “#3 A minha experiência com… Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

    • Olá Chris!
      Pensei que tu já o tinhas lido, lembro-me de ver um vídeo teu em que o mostraste…
      Aconselho, não é muito longo, embora requeira alguma disponibilidade mental, por isso lê e depois diz o que achaste 😉
      Beijinhos

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