#1 Introspecções | Gnosei Seauton – Conhece-te a ti mesmo

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Hoje trago-vos o primeiro texto da rúbrica “Introspecções”, inspirado no livro “Vai aonde te leva o coração” de Susanna Tammaro. Li-o, pela primeira vez, em Janeiro deste ano e, logo nos primeiros capítulos, tirei conclusão de que este livro explorava duas questões que me são muito sensíveis: a educação e o desenvolvimento humano.

As questões do desenvolvimento humano são quase omnipresentes, imbuídas em quase todas as linhas, já que a autora tece relatos que atravessam três gerações, em diferentes momentos das suas vidas. Conhecemos aquelas três personagens fictícias, mas senti como se estivesse a ler sobre todas as pessoas. Sobre aquilo que temos de mais semelhante entre nós: o sofrimento e a imperfeição. Sobre todos os processos e transformações, as expectativas, as incertezas, as decisões que, ao longo do tempo, nos amadurecem. Moldam o nosso modo de ser, de sentir, de pensar, de existir. Moldam a nossa capacidade de ser feliz.

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Depois, através do relato de Olga sobre facetas da sua relação com a neta (de quem nunca sabemos o nome), a quem dirige este diário, e com a sua filha Ilaria, deixa antever muito do que foi o seu estilo parental, neste caso mais permissivo, e o impacto que este terá tido na filha e na neta. Também nos apercebemos que este estilo é resultado da renúncia aparente, mas não consciente, à educação que Olga recebeu.

“Ter-me-ia transformado num ponto sólido na sua vida. Devia ter tido pulso para o fazer. Quando ela me disse «agora tens de te ir embora», devia ter ficado. (…) Mas não o fiz: por cobardia, preguiça e falso sentido de pudor, obedeci à sua ordem. Eu tinha detestado as intromissões da minha mãe, queria ser uma mãe diferente, respeitar a liberdade da sua vida. (…) O amor não se entrega aos preguiçosos, para existir na sua plenitude exige por vezes gestos precisos e fortes. Compreendes? Eu ocultei a minha cobardia e a minha indolência sob o nobre disfarce da liberdade.” (pg. 39)

Além disso, vemos a personagem debater-se com várias reflexões sobre o peso dos diversos factores da educação, nomeadamente a eterna batalha entre Nature (genética) vs. Nurture (ambiente).

“A Ilaria estava convencida de que a genética tinha um peso quase nulo na evolução de uma vida. Para ela, as coisas importantes eram a educação, o ambiente, a forma de crescer. Eu não partilhava dessa ideia, para mim os dois factores andavam a par: uma metade era o ambiente, a outra metade era aquilo que temos dentro de nós desde que nascemos.” (pg. 66)

É interessante este choque de perspectivas, sobretudo se tivermos em conta a contextualização temporal. Pelas contas, Ilaria terá crescido nos anos 60, 70, no qual proliferavam as perspectivas feministas. Além disso, na própria psicologia desenvolviam-se as teorias mais Nurture que procuravam testar os efeitos do ambiente na educação das crianças (às vezes, com efeitos nefastos: http://portalconservador.com/o-experimento-mais-polemico-da-historia-da-psicologia/). Parece-me que este debate é eterno, e que a ciência dificilmente encontrará a fórmula exacta dos factores. Eu, à semelhança de Ilaria, prefiro acreditar, devido à minha história pessoal, que o ambiente é mais forte, e pode mudar muito as trajectórias de desenvolvimento. Porém, cada vez mais me apercebo e aceito que há tendências, talvez genéticas, que exercem o seu poder, e que o nosso passado biológico tem uma importância inegável na construção da nossa identidade. Nós precisamos de conhecer o passado, para entender o presente e seguir para o futuro.

Porém, para que este processo seja possível, é preciso muito mais do que o equilíbrio entre o que nos é dado geneticamente e o que nos é dado pela educação. É preciso muito mais do que aceitar o destino. Aliás, a certa altura, temi que o livro nos deixasse ficar por aqui.

“Um dia, li num livro indiano que o destino possui todo o poder e que o esforço da vontade não passa de um pretexto. Depois de o ter lido, uma grande paz desceu sobre a minha alma. Todavia, no dia seguinte, umas páginas mais à frente, li que o destino é apenas o resultado das acções passadas, e que somos nós, com as nossas mãos, que forjamos o nosso próprio destino. E voltei ao ponto de partida.” (pg. 20)

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Qual será este ponto de partida a que se chega novamente?

De facto, há muitas vozes no mundo. Há muita informação, discorrida sob muitas formas, nem sempre bem integrada. Há, ainda, muitas doutrinas, muitos profetas, que nos pensam poder ajudar a percorrer o nosso caminho. Ajudam-nos a decifrar o nosso código genético, a prever os nossos obstáculos, a entender aquilo que nos fizeram. De bem e de mal. Mas não deixam de ser, ainda assim, as vozes dos outros. Vozes que continuamos a interiorizar, como aprendemos a fazer quando éramos crianças, confiantes de que eram vozes mais seguras. Assim, vamos escapando à responsabilidade de agir segundo a nossa própria consciência, algo que aprendemos a desvalorizar, a bem da nossa auto-estima. Porém, assim, nunca agarramos a nossa própria felicidade, porque esta parte sempre do que os outros acham melhor. Nunca compreendemos o que significa, para nós, ser feliz. Nunca agarramos a nossa própria vida. Nunca ouvimos a nossa própria voz. A voz do coração, talvez, por ser a mais verdadeira e genuína. Nunca seguimos a voz do coração.

Esta é a voz da nossa consciência, “o único verdadeiro e credível” mestre, é a que dá sentido à nossa identidade. Tendo a coragem de a ouvir, de lhe dar validade, é que podemos dar sentido ao resto do mundo: aos erros que se cometeram repetidamente, ao que aprendemos com eles e àquilo que verdadeiramente queremos. Deste modo, podemos escolher livremente, comprometendo-nos com a mudança.

Assim, construímos a nossa identidade, e podemos, finalmente, amarmo-nos a nós mesmos e aos outros. Assim, conhecendo-nos a nós mesmos, no nosso ponto de partida, podemos avançar e aceitar o próximo, dar-lhe o nosso amor.

“Lembra-te que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.” (pg.118)

Que a minha voz, expressa nestas palavras e nos trechos escolhidos da obra, possa, não sobrepor-se à vossa, mas antes estimular a voz do vosso coração…

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Classificação: ***** (Excelente)

Link no Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/38913.Follow_Your_Heart

Gostaram deste texto? O que vos fez pensar? O que vos fez sentir?

Digam-me aí nos comentários, e partilhem comigo todas as vossas sugestões para o Blog 🙂

Beijinhos e até ao próximo post!


Editora: Editorial Presença (http://www.presenca.pt/)

1ª Edição: 1995

Páginas: 120

Apresentação: Capa mole

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4 thoughts on “#1 Introspecções | Gnosei Seauton – Conhece-te a ti mesmo

    • Olá Isaura,

      Não imagina como é gratificante saber que alguém gosta daquilo que escrevemos, principalmente um texto assim…

      Comigo passou-se o mesmo, há anos que o conhecia e nunca o li. Mas li no momento certo, pois antes não tinha a maturidade para o compreender. Agora pode ser o momento;)

      Espero que continue a gostar de passar por cá!

      Beijinhos e boas leituras!

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  1. Olá!
    Ora bem, eu gostei bastante deste texto e pus-me a pensar.
    Eu estudei psicologia, neste momento estou a tirar mestrado em psicologia social e também dei muito sobre o tema de o que define a personalidade e o comportamento humano.
    Só para teres uma ideia de como não há um grande consenso, lembro-me de ter estudado serca de 5 teorias sobre a personalidade…
    Sabes a que conclusão chego? As pessoas são o que são não pelo ambiente, e muito menos pela genética que nos defino o corpo, mas não o pensamento, as pessoas são o que são porque cada pessoa é diferente e vê e interpreta o mundo de modo diferente.
    Além disso, num universo tão grande e desconhecido há tanta coisa que nunca iremos realmente conseguir entender e a ciência não irá explicar tudo, em especial quando só conhece uma parte ínfima do tudo que é o universo.
    O livro pareceu realmente muito bom, no futuro pensarei em lê-lo.
    Beijinhos

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    • Olá Andreia, eu também estudei psicologia 😉 são questões que permanecem por compreender, e que a própria psicologia ainda não conseguiu abarcar. Nós temos sempre milhentas teorias, poucas conclusões e muitas dúvidas 😛 beijinhos

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